
O leite em pó desnatado e o NFDM costumam ser descritos como os produtos mais “commoditizados” do universo lácteo. Têm especificações mais simples do que muitos outros ingredientes lácteos e movimentam volumes expressivos no comércio mundial. É um mercado bastante competitivo, em que EUA, Europa e Nova Zelândia dependem de garantir demanda de exportação suficiente para sustentar preços internos saudáveis. O mercado americano, em especial, teve desempenho relativamente fraco em 2023. Depois da queda a partir dos níveis altos de janeiro de 2022, os maiores desde 2014, os preços oscilaram durante todo o ano sobretudo na faixa de 1,10-1,20 USD/lb. O preço foi o principal motor da demanda, que enfraquecia ou migrava para outras regiões sempre que se aproximava ou ultrapassava o limiar de 1,20 USD, como mostra a Figura 1.

Figura 1: comparação de preços entre NFDM NDPSR e CME Spot
Este artigo traz uma perspectiva para o mercado americano de NFDM em 2024, com o pano de fundo e as chaves de leitura do cenário cheio de nuances em que o setor terá de se mover. Vamos cobrir o balanço de oferta, com um panorama da produção de leite nos EUA e no mundo, da produção de NFDM e leite em pó desnatado e dos níveis de estoque nas regiões-chave. Também vamos examinar os possíveis efeitos das mudanças na produção chinesa e sua influência sobre o mix de produtos da Nova Zelândia, elemento decisivo para entender a competitividade futura.
Como se compararam os volumes de exportação de leite em pó desnatado e NFDM dos EUA, da União Europeia, da Nova Zelândia e da China em 2023?
No mercado de exportação de leite em pó desnatado e NFDM, EUA, União Europeia e Nova Zelândia são os agentes dominantes. Por causa da concorrência intensa pelas exportações mundiais, os preços entre essas regiões costumam ficar bastante alinhados. É resultado direto da necessidade de seguir competitivo num mercado em que a exportação pode responder por até dois terços da demanda, com o consumo doméstico cobrindo o terço restante nos EUA.
Ao olhar os volumes de exportação e comparar o desempenho dos três principais agentes ao longo de 2023, parece que a indústria exportadora americana foi a que mais perdeu, com números negativos em quase todos os países entre os 10 principais destinos (variação anual no acumulado até outubro). Esses números levaram a “apenas” uma queda de 3,42%, em grande parte por causa de um forte aumento das exportações para o México. Os EUA perderam competitividade, sobretudo na Ásia, como mostra a Figura 2.

Figura 2: tabela de importação e exportação para os 10 principais destinos de exportação do leite em pó desnatado (alimentício)
A queda coincide com importações fracas do Sudeste Asiático (-13,67% em outubro), mas ainda assim vemos aumento das exportações neozelandesas de leite em pó desnatado para a região, avançando ativamente sobre a fatia que ia para os EUA nos anos anteriores.
Para a China, maior importadora do mundo, as importações de leite em pó desnatado crescem 7,23% (variação anual no acumulado até novembro), enquanto os EUA registram queda de 54,18% nas exportações para a China (variação anual no acumulado até outubro), como mostra a Figura 3. De novo, os números indicam que a Nova Zelândia está ficando com a maior parte dessa fatia. Em novembro de 2023, as importações chinesas de leite em pó desnatado (alimentício) vindas da Nova Zelândia somaram 11.224 toneladas, 48,60% do total, alta de 17,80% em relação ao ano anterior, como mostra a Figura 4.

Figura 3: exportações dos EUA para a China de leite em pó desnatado (alimentício)

Figura 4: importações chinesas de leite em pó desnatado (alimentício), 10 principais países de origem
Vamos agora ao lado da oferta, para entender o efeito dessas tendências de exportação sobre os Estados Unidos.
Como as tendências de produção de leite nos EUA em 2023 se relacionaram com as mudanças nos preços do leite e da ração?
A produção de leite nos EUA começou 2023 com o mesmo fôlego com que 2022 havia terminado. Os primeiros meses mostraram crescimento anual robusto, perto da temporada muito forte de 2021. Apesar do começo sólido, a queda de produção foi inevitável, já que os preços do leite despencaram nos primeiros meses do ano, como mostra a Figura 5.

Figura 5: preço do leite segundo o USDA (All Milk)
Com os preços do leite em queda no primeiro semestre de 2023, a rentabilidade dos produtores diminuiu. O motivo foi o estreitamento da margem entre o custo da ração, sua maior e mais oscilante despesa, e os preços recebidos pelo leite: os preços da ração seguiram em patamares historicamente altos enquanto os do leite caíam com força. O primeiro alívio veio em agosto, depois de a margem ter atingido o ponto mais baixo em julho de 2023, como mostra a Figura 6.

Figura 6: comparação de preços entre leite classe III e ração para gado leiteiro
Apesar de margens historicamente baixas apertando a rentabilidade, a produção de leite se manteve resiliente e superou os níveis de 2022. Esse quadro nacional, porém, esconde variações regionais expressivas. Os estados tradicionalmente queijeiros do Meio-Oeste foram bem, com crescimento de 1,76%, enquanto a costa oeste, que inclui a Califórnia, região de forte presença de NFDM, sofreu, com queda de 1,5% na produção de leite, como mostra a Figura 7.

Figura 7: produção de leite nos EUA (Oeste)

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Qual foi o efeito dos níveis de produção de leite sobre a produção de NFDM nos EUA em 2023?
O efeito da oferta de leite em dificuldade no Oeste aparece com clareza nos números de produção de NFDM e leite em pó desnatado, como mostra a Figura 8.

Figura 8: volumes de produção de NFDM e leite em pó desnatado (EUA)
Os níveis de estoque fugiram do padrão sazonal habitual. Tradicionalmente, a temporada leiteira americana vê os estoques de NFDM subirem. Já 2023 começou com um aumento modesto em janeiro, seguido de queda ao longo do ano, como mostra a Figura 9.

Figura 9: oferta e demanda de NFDM e leite em pó desnatado (EUA)
A linha vermelha mostra os estoques finais mensais em queda, enquanto as barras abaixo ilustram o consumo doméstico em relação à produção. Fica evidente o papel decisivo das exportações para o mercado americano.
Qual foi a relação entre oferta e demanda globais no setor lácteo em 2023?
Olhando apenas o quadro da oferta, seria de esperar um sentimento de alta. A realidade do mercado, porém, conta outra história. Preços fracos e exportações atrasadas sugerem dificuldades de fundo na demanda. Para entender esse descolamento, é preciso olhar mais fundo o lado da demanda, em especial a evolução na China.
A China busca autossuficiência na produção de alimentos, lácteos incluídos, mas o caminho está longe do fim. Apesar do crescimento notável, com a produção de leite subindo pelo menos 8% ao ano nos últimos três anos e 3,39% nos primeiros 10 meses de 2023, o setor chinês ainda tem muito a percorrer, como mostra a Figura 10.

Figura 10: produção de leite na China
A maior parte desse leite adicional vai para a produção de leite em pó integral. Depois de um salto de 25,25% em 2022 em relação à queda de 2021, a produção de leite em pó integral subiu mais 13,2% nos primeiros 10 meses de 2023. Esse crescimento pressiona o tradicional mercado exportador da Nova Zelândia. Em resposta, a Nova Zelândia deslocou leite da produção de integral para a de desnatado em pó, com aumento notável de 30% até novembro de 2023, como mostra a Figura 11.

Figura 11: volumes de produção de leite em pó desnatado na Nova Zelândia
A presença crescente da Nova Zelândia nos mercados de exportação é um desafio significativo para os EUA. Ao longo de 2021 e boa parte de 2022, o preço americano de NFDM (NDPSR) tinha vantagem clara, com cotações bem abaixo das neozelandesas. No último ano o quadro mudou e a diferença se estreitou de forma considerável, como mostra a área rosa na Figura 12. Quando a área rosa sobe acima de zero, significa que os preços da Nova Zelândia estão mais baixos que o NDPSR.

Figura 12: comparação de preços entre NFDM e leite em pó desnatado (alimentício)
Margens de preço mais estreitas poderiam sugerir condições mais equilibradas entre o NFDM americano e o leite em pó desnatado neozelandês, mas a realidade tem mais nuances. Acordos comerciais e custos de frete costumam entrar em cena, funcionando como ajustadores invisíveis de preço. Quando as diferenças são mínimas, por exemplo, os acordos comerciais favoráveis da Nova Zelândia e os fretes possivelmente mais baixos para certas regiões podem pesar a favor dela, tornando o produto mais atraente apesar de preços aparentemente comparáveis. É mais um desafio para os exportadores americanos de NFDM que disputam participação num mercado global muito acirrado. Um bom exemplo é a China, onde as exportações dos EUA precisam somar 10% de tarifas de importação, enquanto o acordo de livre comércio ampliado da Nova Zelândia permite importar sem tarifas a partir de 1º de janeiro de 2024. *Todas as tarifas de importação podem ser consultadas com facilidade na seção de ajuda e suporte da Vesper.
Outra tendência que vale acompanhar é o aumento expressivo da demanda mexicana por produtos americanos. O setor lácteo dos EUA se beneficiou de alta de 21,17% nas exportações de leite em pó desnatado e NFDM para o México (acumulado até outubro), como mostra a Figura 13, mas espera-se que esse avanço volte a níveis mais normais quando os preços se estabilizarem ou quando os estoques mexicanos estiverem suficientemente cheios.

Figura 13: exportações de leite em pó desnatado dos EUA para o México
Conclusão
NFDM e leite em pó desnatado são ingredientes lácteos a granel bastante competitivos e negociados globalmente, e a produção crescente de leite na China, com o consequente aumento da produção de leite em pó integral, afetou o mercado de forma significativa. A migração da Nova Zelândia para mais leite em pó desnatado intensificou a concorrência para os exportadores americanos de NFDM, sobretudo no Sudeste Asiático, mercado historicamente central que registrou a queda mais acentuada de demanda, pela redução geral das importações e pela participação crescente da Nova Zelândia.
Apesar da queda da produção de leite no Oeste, resta ver se a demanda global conseguirá empurrar para cima os preços do NFDM, e para os exportadores americanos é decisivo acompanhar de perto as tendências relativas de preço em relação à Nova Zelândia e à Europa. A pressão sustentada desses concorrentes exige estar à frente da curva competitiva e se adaptar às mudanças de mercado.
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