
A Cargill há muito é um dos players mais proeminentes da indústria de ingredientes alimentícios. Quando o assunto é cacau, a gigante americana administra operações integradas ao longo da cadeia de suprimentos. Seu alcance inclui sourcing, processamento e fabricação de massa de cacau, manteiga de cacau, cacau em pó e produtos de chocolate.
Mais recentemente, a empresa vem na dianteira das grandes marcas que entram no mercado de alternativas ao cacau. Isso se vê na oferta de alternativa ao chocolate NextCoa da Cargill e na parceria com a start-up Voyage Foods.
Além disso, ela também anunciou planos de reformular seus esforços de sustentabilidade, fazendo mudanças na sua cadeia de suprimentos global.
Sentamos com Anne Mertens-Hoyng, senior director of the Chocolate Confectionery & Ice Cream Category da Cargill, para saber mais sobre os planos da empresa para alternativas, como ela vê o futuro do cacau evoluindo e o que os profissionais de compras poderiam estar fazendo para se adaptar à volatilidade.
O que despertou o interesse inicial da Cargill em entrar no mercado de alternativas ao cacau em confeitaria?
Mertens-Hoyng: “Na Cargill, sempre adotamos uma abordagem voltada ao futuro na inovação em cacau e chocolate. A complexidade crescente na oferta global de cacau, de pressões climáticas a instabilidade geopolítica, intensificou a necessidade de alternativas escaláveis e focadas em sustentabilidade. Ao mesmo tempo, os clientes pedem cada vez mais soluções de ingredientes que equilibrem indulgência com resiliência, custo-benefício e responsabilidade ambiental.”
“Nossa entrada em alternativas ao chocolate para confeitaria - a NextCoa - faz parte da nossa estratégia mais ampla de oferecer um portfólio de indulgência mais flexível e diversificado. Não se trata de substituir o cacau, e sim de complementá-lo com escolhas inovadoras que endereçam a volatilidade e atendem a demandas de mercado em evolução. Isso é inestimável para profissionais de compras que navegam cadeias de suprimentos cada vez mais restritas.”
Como a Cargill viu as alternativas ao cacau evoluírem nos últimos cinco anos?
Mertens-Hoyng: “Cinco anos atrás, as alternativas ao chocolate em confeitaria eram majoritariamente experimentais ou de nicho. Hoje, elas vêm ganhando tração como soluções práticas para fabricação em larga escala. Vimos os times de compras saírem de uma consciência passiva para uma exploração ativa, pedindo alternativas de parceiros confiáveis que sejam escaláveis, estáveis em preço e sensorialmente competitivas com o cacau.”
“Os consumidores também estão mais abertos a formulações inovadoras, especialmente quando ligadas à sustentabilidade ou a produtos sem castanhas. Isso deu mais confiança aos compradores para diversificar suas estratégias de sourcing. É importante notar que alternativas como a NextCoa também reduzem o risco do planejamento de suprimento ao se apoiarem em matérias-primas menos suscetíveis a impactos climáticos ou a especulação de mercado.”
Dadas as questões com o sourcing de cacau, como você vê o setor evoluindo no futuro, e como isso convive com o portfólio mais tradicional de produtos à base de cacau com que a Cargill trabalha?
Mertens-Hoyng: “Vemos o futuro como um ‘e’, não um ‘ou’, o cacau tradicional vai continuar tendo significado emocional e cultural. Mas soluções alternativas de indulgência, especialmente as descoladas do cacau, vão ter um papel crescente na construção de portfólios resilientes e mais sustentáveis.”
“Nossa abordagem é dupla: manter e fortalecer nossas operações de cacau com sourcing responsável e, ao mesmo tempo, investir em tecnologias voltadas ao futuro como a NextCoa. A chave é oferecer escolha aos clientes, quer eles precisem de chocolate de cobertura clássico, quer de uma cobertura composta sem cacau, estável em custo e com menor impacto ambiental.”

Anne Mertens-Hoyng
A que áreas ou tendências os profissionais de compras devem prestar atenção ao comprar no mercado de alternativas ao cacau e de cacau tradicional?
Mertens-Hoyng: “Os profissionais de compras operam hoje em um dos mercados de cacau mais voláteis em décadas. Rupturas relacionadas ao clima, combinadas com instabilidade política em países de origem importantes e com comportamento especulativo de mercado, estão provocando altas históricas de preço e incerteza de longo prazo quanto à disponibilidade e ao preço do cacau.”
“Nesse ambiente, a diversificação de sourcing vem se tornando crítica, e muitos compradores agora exploram alternativas ao chocolate 100% como um amortecedor estratégico. Essas alternativas oferecem estabilidade de suprimento ao usar matérias-primas mais amplamente disponíveis, resilientes ao clima e menos vulneráveis a rupturas geopolíticas, como sementes de girassol e de uva.”
“Ao mesmo tempo, a sustentabilidade vem se tornando uma métrica-chave de compras. As decisões de ingredientes são cada vez mais julgadas não só por custo ou funcionalidade, mas também por impacto ambiental, sobretudo pegada de carbono, consumo de água e uso da terra. Nesse contexto, alternativas ao chocolate em confeitaria respaldadas por análises de ciclo de vida verificadas por terceiros vêm ganhando tração.”
“Por fim, as expectativas do consumidor seguem evoluindo. Há demanda crescente por produtos indulgentes que sejam plant-based, sem lácteos e sem castanhas na composição, e com menor impacto ambiental. As decisões de compras influenciam cada vez mais a capacidade de uma marca de atender a essas expectativas em escala, mantendo desempenho e metas de custo.”
“Somando tudo, isso significa que os líderes de compras precisam adotar uma estratégia de sourcing flexível e voltada ao futuro, que equilibre continuidade de suprimento com desempenho em sustentabilidade, prontidão regulatória e capacidade de resposta ao mercado. O papel de compras nunca foi tão estratégico, particularmente ao navegar o caminho duplo do cacau tradicional e das alternativas de próxima geração.”
Como está indo a sua parceria com a Voyage Foods?
Mertens-Hoyng: “Nossa colaboração com a Voyage Foods vai de vento em popa. Somos o distribuidor global B2B exclusivo deles para a NextCoa. O que torna essa parceria poderosa é o alinhamento de capacidades: a Voyage traz tecnologia patenteada e inovação escalável, enquanto a Cargill contribui com expertise em sourcing, conhecimento de aplicação e alcance comercial.”
“Juntas, apresentamos um conjunto de produtos indulgentes produzidos sem alérgenos de castanhas nem de lácteos na formulação da receita e feitos a partir de matérias-primas amplamente disponíveis, como sementes de girassol e sementes de uva revalorizadas. Essas soluções já vêm repercutindo entre clientes que buscam descarbonizar suas cadeias de suprimentos e blindar seus portfólios para o futuro.”

Qual o peso da sustentabilidade na sua abordagem?
Mertens-Hoyng: “A sustentabilidade está na linha de frente do nosso design de produto. Comparada ao chocolate do ponto de vista ambiental, nossa oferta NextCoa proporciona até: 67% de redução na pegada de carbono; 90% menos impactos relacionados ao uso da terra; e 95% menos pegada hídrica. Esses resultados seguem os padrões internacionalmente reconhecidos de pegada de produto, em conformidade com as ISO 14040 e ISO 14044, e são verificados por terceiros.”
“Reconhecemos que sustentabilidade é mais do que meio ambiente, é também viabilidade econômica, bem-estar social e acesso de longo prazo. A NextCoa oferece preços mais estáveis e ajuda a mitigar o risco de matéria-prima, o que é cada vez mais importante para profissionais de compras que gerem custo e continuidade entre regiões.”
“Na Cargill, também continuamos apoiando o setor de cacau por meio do Cargill Cocoa Promise e de outros programas de longa data. Essa estratégia de trilha dupla garante que construamos um ecossistema de cacau próspero ao mesmo tempo que viabilizamos inovação em caminhos alternativos.”
Por último, o que mais a Cargill está fazendo nessa área?
Mertens-Hoyng: “Estamos avaliando no momento aplicações mais amplas para a NextCoa em coberturas, inclusões e recheios, abrangendo categorias como panificação, cereais e alternativas aos lácteos. Também estamos codesenvolvendo formatos inovadores com nossos clientes, incluindo pastas sem castanhas que atendem à demanda crescente por guloseimas acessíveis e com rótulo limpo.”
“Também estamos ajudando nossos clientes a explorar formas de reduzir o cacau em uma gama de produtos, separadamente da nossa oferta NextCoa. Por exemplo, nossas soluções mais recentes incluem chocolate feito com <5% de equivalente de manteiga de cacau (CBE), que ainda entrega a experiência sensorial completa do chocolate, ao mesmo tempo que apoia a otimização de custo.”
“O que é poderoso é que esses não são substitutos de segunda linha. Graças à nossa profunda ciência sensorial, conseguimos ajustar sabor, textura e aroma para igualar, e às vezes superar, as expectativas do consumidor. Nossa pesquisa mostra que 90% dos consumidores acharam as alternativas tão satisfatórias quanto o chocolate tradicional em bolos macios. Ou seja, estamos destravando economia de custo sem provocar um comprometimento sensorial.”
“À medida que os cenários regulatório e de consumo evoluem, estamos comprometidos em ficar à frente da curva, para que nossos clientes não tenham de correr atrás depois. Seja por capacidade ampliada em Deventer, novas linhas de especialidades ou parcerias de cocriação, nosso objetivo é garantir que a indulgência siga ao alcance dos nossos clientes e dos consumidores que eles atendem.”
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