
Os medicamentos GLP-1 estão em toda parte no momento.
Todos os agentes do setor de alimentos os acompanham de perto. E, se você compra, vende ou negocia commodities agrícolas, já deve ter ouvido a mesma pergunta mais de uma vez:
“O que isso significa de fato para a demanda?”
O ponto é que a maioria dos artigos sobre o tema cita o mesmo punhado de estudos. Os mesmos dados aparecem em dezenas de textos diferentes, muitas vezes sem o contexto do quadro completo.
Nós quisemos reunir tudo.
Percorremos todas as pesquisas relevantes publicadas sobre os GLP-1 e seu efeito no consumo de alimentos, no comportamento de compra e na demanda por commodities. Depois organizamos tudo num só lugar, para que você veja o quadro completo e tire suas próprias conclusões.
Veja o que os dados realmente dizem.
Todos os estudos que analisamos, em uma tabela
Antes de entrar nos detalhes, aqui está um resumo de cada estudo, do que ele mediu e do achado principal.
| Estudo | Publicação | O que mediu | Achado principal | Relevância para commodities |
| farmdoc daily (University of Illinois) | Mar 2025 | Expectativas do consumidor sobre o impacto econômico dos GLP-1 | Quem usa ou pretende usar GLP-1 espera mudanças significativas em toda a cadeia de alimentos. | Todas as categorias: sinaliza deslocamentos amplos de demanda à frente. |
| ScienceDirect – preferências alimentares (revista Appetite) | 2025 | Pesquisa com usuários atuais, ex-usuários e potenciais de GLP-1 | Os usuários cortam 720-990 calorias por dia. Maiores reduções em alimentos processados, bebidas açucaradas, grãos refinados e carne bovina. | Açúcar, grãos, carne bovina: pressão direta de baixa. |
| ScienceDirect – demanda por proteína (revista Food Policy) | 2025 | Como o uso de GLP-1 afeta a disposição a pagar por proteína | Usuários de GLP-1 mostram maior disposição a pagar por produtos proteicos. As elasticidades-preço ficam até 0,22 mais inelásticas. | Laticínios, soro de leite, carne: demanda em alta e menor sensibilidade a preço. |
| Wells Fargo Agri-Food Institute (com a NielsenIQ) | 2025 | Padrões de compra em supermercado por tipo de uso de GLP-1 | Novos usuários para perda de peso gastaram inicialmente 22% a mais em supermercados. Maiores ganhos em saúde e beleza, bebidas não alcoólicas e energéticos. | Hortifrúti, laticínios, frutas: fortes ganhos de volume. |
| AIFI (American International Foods) | Out 2025 | Tamanho do mercado de GLP-1 e implicações para a indústria de alimentos | Mercado de GLP-1 para perda de peso: US$ 20,86 bilhões em 2025, com projeção de US$ 48,84 bilhões até 2030 (CAGR ~18,5%). | Todas as categorias: a escala do mercado confirma que não é modismo passageiro. |
| Circana (Sally Lyons Wyatt) | Nov 2025 | Dados de compra de domicílios americanos usuários de GLP-1 | Domicílios GLP-1 (23% dos EUA) devem representar 35% de todas as unidades de alimentos e bebidas vendidas até 2030. | Açúcar, snacks: em queda. Proteína, fibra, hortifrúti: em alta. |
| JAMA Network Open (Sørensen et al.) | Jan 2026 | Cupons fiscais reais de supermercado de 1.177 consumidores dinamarqueses | Após iniciar os GLP-1: densidade energética, açúcar e carboidratos caíram. A proteína subiu. Clara migração dos ultraprocessados para os não processados. | Açúcar, óleos vegetais (gordura saturada): queda moderada. Proteína láctea: em alta. |
| ING Think (Thijs Geijer, Diederik Stadig) | Mar 2026 | Impacto dos GLP-1 na demanda europeia por alimentos | O impacto atual na UE é de cerca de 0,25% da demanda calórica total. Pode chegar a 2,5-3,5% até 2030 num cenário de alta adoção. | Snacks, confeitaria e álcool são os mais expostos. Grãos e laticínios, mais resilientes. |
| Acosta Group | Abr 2026 | Mudanças de compra e de estilo de vida em 2.117 adultos nos EUA | 55% compram mais hortifrúti. 32% mais iogurte. 31% mais frango fresco. 30% mais shakes proteicos. | Laticínios (iogurte, soro), aves, hortifrúti: beneficiários claros. |
O que as pessoas de fato comem muda. Veja como.
Vários estudos já confirmam o mesmo padrão: quem usa GLP-1 não come apenas menos. Come diferente.
O estudo do JAMA Network Open é especialmente interessante porque usou cupons fiscais reais de supermercado, e não questionários autodeclarados. Depois de iniciar o medicamento, os consumidores dinamarqueses passaram a comprar alimentos com menos açúcar, menos carboidratos e menos gordura saturada por 100 gramas. O teor de proteína por 100 gramas subiu.
Ao mesmo tempo, a fatia de alimentos ultraprocessados nas cestas caiu, substituída por itens não processados ou minimamente processados.
O estudo de preferências alimentares do ScienceDirect encontrou padrão parecido por outro ângulo. Os usuários de GLP-1 reduziram a ingestão diária em 720 a 990 calorias. As maiores quedas foram em alimentos processados, bebidas açucaradas, grãos refinados e carne bovina.
E é isso que torna o tema relevante para os mercados de commodities: não se trata só de comer menos, mas de comer outras coisas.
O efeito proteína
Um estudo merece atenção especial se você atua com proteína ou laticínios.
O estudo do ScienceDirect sobre demanda por proteína (publicado na Food Policy) constatou que os usuários de GLP-1 mostram maior disposição a pagar por produtos proteicos em todo o espectro. As elasticidades-preço ficam até 0,22 mais inelásticas, ou seja, eles são menos sensíveis a aumentos de preço em proteína.
As implicações são diretas para os mercados de laticínios, carne e proteínas vegetais.
Os dados do Acosta Group confirmam isso no comportamento de compra: 32% dos usuários dizem comprar mais iogurte, 31% mais frango fresco e 30% mais shakes e pós proteicos.
Enquanto isso, a pesquisa da Wells Fargo com a NielsenIQ constatou que categorias como abacate (+198%), kiwi (+74%) e frutas congeladas tiveram ganhos expressivos entre usuários de GLP-1 para perda de peso. A carne fresca subiu 15%, o queijo 16% e os produtos lácteos 17%.
Se você negocia ou compra ingredientes lácteos, proteína do soro ou hortifrúti, é um sinal de demanda que vale acompanhar.
A escala: qual é o tamanho disso, de fato?
É aqui que fica interessante para quem tenta projetar demanda.
No momento, o impacto é relativamente pequeno. O ING estima que, com cerca de 2% dos adultos da UE usando GLP-1, o efeito total sobre a demanda calórica europeia é de aproximadamente 0,25%. Não é um número que tire o sono dos fabricantes de alimentos.
Mas a trajetória importa.
A Circana constatou que os domicílios GLP-1 já respondem por 23% de todos os domicílios americanos. Até 2030, projeta que eles representarão 35% de todas as unidades de alimentos e bebidas vendidas. Não é um mercado de nicho.
O próprio mercado de medicamentos GLP-1 para perda de peso cresce a um CAGR de aproximadamente 18,5%, de US$ 20,86 bilhões em 2025 para uma projeção de US$ 48,84 bilhões até 2030 (segundo a AIFI, citando a Grand View Research).
E o ING estima que o mercado mais amplo de GLP-1 (incluindo o tratamento de diabetes) chegará a US$ 100 bilhões até o fim de 2027.
Três fatores devem acelerar ainda mais a adoção:
Medicamentos orais. O mercado de GLP-1 vai migrar do injetável para o oral nos EUA (2026) e na Europa (2027). Isso significa preços até 50% menores e mais conveniência.
Mais concorrência. Novas farmacêuticas estão lançando seus próprios GLP-1, criando pressão de preço.
Reembolso público. Se a perda de peso sustentada provar reduzir custos de saúde, mais governos europeus podem cobrir os medicamentos para uma população maior.
Os quatro cenários do ING para a demanda por alimentos até 2030
O ING propôs um arcabouço útil para pensar aonde isso leva. Construiu quatro cenários sobre duas dimensões: quanto dura o efeito de perda de peso e quão concentradas são as mudanças alimentares entre categorias.
No cenário mais transformador, a ingestão calórica pode cair 2,5-3,5% em toda a Europa até 2030, com percentuais bem maiores nas categorias mais atingidas (snacks, confeitaria, álcool).
No cenário mais conservador, o uso segue restrito aos casos médicos mais urgentes e o efeito sobre a demanda por alimentos permanece mínimo.
A realidade, argumenta o ING, provavelmente será uma combinação entre os diferentes países europeus, já que cada mercado tem um sistema de saúde distinto, taxas de obesidade distintas e disposição pública distinta para reembolsar medicamentos.
Para quem compra e vende commodities, isso significa que o impacto não será uniforme: vai variar por geografia, por categoria e por horizonte de tempo.
As pessoas entram e saem do tratamento
Um padrão que aparece repetidamente nos estudos: para a maioria das pessoas, o uso de GLP-1 não é permanente.
Cerca de 50% dos usuários interrompem no primeiro ano, segundo pesquisas citadas tanto pelo ING quanto pela Circana. Os motivos incluem custo, efeitos colaterais ou o alcance do peso desejado.
Mas há uma nuance: 50% de quem parou diz que provavelmente vai retomar o medicamento no futuro (Circana). E algumas mudanças de comportamento permanecem mesmo depois da interrupção. A Circana constatou crescimento sustentado nas compras de hortifrúti, cuidados pessoais e itens de casa após a interrupção, mesmo com bebidas e congelados se recuperando.
Para empresas de alimentos e fornecedores de ingredientes, isso cria um padrão de demanda oscilante, e não uma queda em linha reta. Os consumidores entram e saem do tratamento, e suas cestas se deslocam junto.
O que isso significa se você compra, vende ou negocia commodities
As pesquisas são consistentes em alguns pontos.
Usuários de GLP-1 comem menos no total, mas deslocam a dieta para proteína, fibra, hortifrúti e alimentos minimamente processados. Afastam-se do açúcar, dos carboidratos refinados, dos snacks processados e, em certa medida, da carne bovina.
Para quem negocia açúcar, isso acrescenta mais uma variável às projeções de consumo na América do Norte e na Europa. Alguns já ajustaram seus números para baixo.
Para laticínios, o quadro é mais positivo. A demanda por proteína cresce entre os usuários de GLP-1 e a disposição a pagar sobe. Iogurte, queijos e produtos à base de soro são beneficiários diretos (veja nossa análise dedicada ao efeito dos GLP-1 sobre o preço da proteína láctea).
Para grãos, o efeito depende do produto. Os grãos refinados enfrentam vento contrário. Os integrais e os produtos ricos em fibra podem se beneficiar.
Para carne e aves, o quadro é dividido. O consumo de carne bovina cai entre usuários de GLP-1, mas o frango fresco é um dos que mais ganham. A Acosta encontrou 31% dos usuários comprando mais frango fresco, e a Wells Fargo viu a carne fresca subir 15% no total. A migração é da carne vermelha e processada para a proteína magra.
Para hortifrúti, o sinal é forte. Vários estudos mostram usuários de GLP-1 enchendo o carrinho de frutas e hortaliças. A Acosta relata 55% comprando mais hortifrúti, e a Wells Fargo encontrou abacate em alta de 198% e kiwi de 74% entre quem usa para perda de peso.
Para snacks, confeitaria e álcool, a perspectiva é mais dura. O ING identifica essas como as categorias mais expostas. Usuários de GLP-1 se afastam de forma consistente de snacks processados e doces açucarados, e vários estudos apontam redução no consumo de álcool.
Para óleos e gorduras, os dados são menos claros. As compras de gordura saturada caem de forma moderada, mas a variação no consumo total de gordura é menor do que a de açúcar ou carboidratos.
O resumo: o impacto é real, está crescendo e é específico por categoria. Os estudos divergem quanto à velocidade e à escala, mas convergem quanto à direção.
Seja montando o orçamento do ano que vem ou avaliando uma estratégia de sourcing de longo prazo, a adoção de GLP-1 já é uma variável a considerar.
Para ver como os fabricantes de alimentos já estão respondendo a essas mudanças, veja nossa análise empresa por empresa.
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