
2025 foi o ano em que a indústria americana de queijo bateu no teto. Novas plantas entraram em operação. O leite veio em abundância. Mas o consumo doméstico ficou estável, e as guerras de preço europeias corroeram a vantagem de exportação que sustentava as margens havia meses. Os preços caíram 27% no ano, de quase 2 USD/lb para 1,47 USD/lb.

Preços americanos de queijo em blocos e em barris segundo NDPSR e CME Call, em USD/lb
A alta de janeiro, o pico de demanda de maio, o colapso de setembro, o piso de dezembro em 1,47 USD/lb. Cada ponto de inflexão obrigou as áreas de compras a decidir com informação incompleta.
Esta é a anatomia mês a mês do que aconteceu.
Janeiro: reinício das fábricas, preços em alta
O ano abriu com um padrão conhecido: a parada das fábricas nas festas cria uma queda de produção, o leite migra para o queijo e os preços sobem com a oferta menor.
Os futuros de queijo da CME subiram de forma constante em janeiro. O mercado de blocos na CME se moveu para cima enquanto os processadores organizavam a programação pós-feriados. Os dados de armazenagem frigorífica mostravam estoques de American cheese 7% menores no ano, sinal de condições mais apertadas.
Mas o sinal real era de direção. Os produtores esperavam desaceleração da demanda. Aconteceu o contrário. Os preços do queijo subiram. Os preços do soro seguiram favoráveis. A combinação mostrou aos processadores espaço para correr, e os projetos de nova capacidade já aprovados entraram na fase final de planejamento.
Número-chave: estoques de American cheese 7% menores no ano.
Fevereiro: surge o cenário de baixa
Em meados de fevereiro, a curva de futuros da CME virou. Os preços do queijo achataram e passaram a sentir pressão real.
Foi o primeiro sinal de que algo havia mudado. O cenário de baixa não era novo: os processadores discutiam havia meses a nova capacidade de mozarela. Fevereiro, porém, foi quando os traders começaram a precificá-la.
Os dados de armazenagem frigorífica confirmaram a preocupação: os estoques de American cheese haviam encolhido apenas 7% no ano, o que em termos absolutos significava estoque ainda abundante. E a mozarela negociava mais barata que o cheddar, sinal de que parte da nova capacidade já produzia.
A nova capacidade entrava em operação mais rápido do que o esperado. Os preços não iam se sustentar.
Março: o piso cede
Março respondeu com clareza brutal.
O queijo em blocos na CME caiu 0,25 USD/lb em poucos dias. Uma queda de 13% em uma semana. Os processadores viram suas margens a termo evaporarem. O mercado não sinalizava um amolecimento gradual. Era uma cachoeira.
Os dados de armazenagem mostravam estoques de American cheese 1% maiores no mês, mas 7% menores no ano. Traduzindo: a produção começava a superar o padrão sazonal esperado. A nova capacidade de mozarela estava rodando. O cheddar enfrentava vento contrário.
As manchetes sobre tarifas comerciais somaram incerteza a mercados de exportação centrais.
Março foi o mês em que os produtores aprenderam que nova capacidade somada a consumo doméstico em desaceleração dá problema de mercado.
A virada: a oferta disparou. A demanda ficou parada. Quem pagou a conta foi o preço.
Abril: capacidade, não consumo
Os dados de produção de fevereiro (divulgados em abril) mostraram a escala:
- Produção de mozarela: +3,59% no ano
- Produção de cheddar: -1,35% no ano
- Produção total de queijo: +0,78%
O mix importava. A mozarela, queijo de grande volume para redes de pizza e foodservice, crescia. O cheddar, o preferido do consumidor e de margem mais alta, encolhia.
Ao mesmo tempo, a produção de leite atingiu os níveis mais fortes em anos. Os maiores rebanhos desde maio de 2023 despejavam leite no sistema. Parte ia para o queijo. Parte para o soro de leite em pó. Tudo indicava que a oferta continuaria crescendo, independentemente do preço.
A incerteza tarifária vinda das manchetes políticas do “Liberation Day” acrescentou mais uma camada de risco ao planejamento de exportação.
Abril foi o mês em que o setor reconheceu um fato simples: a expansão de capacidade deixara de ser a boa notícia. Virou a restrição.
A realidade produtiva: abril marcou máximas nas plantas. Março tinha dado um gostinho do que era capacidade plena.
Maio: a anomalia da demanda
Então aconteceu algo inesperado.
A demanda por queijo disparou. Os preços se aproximaram de 2 USD/lb.
O consumo per capita de queijo nos EUA havia crescido 11,28% na década anterior. Essa tendência de longo prazo não sumiu. As negociações tarifárias entre EUA e China e os acordos comerciais com a Indonésia somaram otimismo.
A produção de março (divulgada em maio) mostrou a recuperação real: +1,35% no ano, com o cheddar voltando forte a +9,64%.
A narrativa virou. Quem havia entrado em pânico em março via de repente um caminho de volta à margem. Os preços se aproximaram de 2 USD/lb.
Junho: banho de realidade depois do pico
O calor do verão trouxe resfriamento. Os preços caíram de 2 USD/lb para 1,7 USD/lb.
A produção de queijo de abril veio em máximas recordes: +3,08% no ano. Traduzindo: quando você roda a nova capacidade a todo vapor, sai muito queijo. O mercado havia precificado a esperança de oferta apertada. Os dados entregaram o oposto.
Desta vez, porém, os processadores não entraram em pânico. Eis o porquê:
O dólar fraco deixava o queijo americano barato nos mercados mundiais. As exportações dispararam. Japão e Coreia do Sul compravam. O canal de exportação, que em abril parecia incerto, virou de repente a válvula de escape.
Junho foi o mês em que a estratégia de exportação passou de “bom ter” a “necessária”.
A realidade de junho: as máximas de abril viraram excesso de oferta em junho. As exportações se tornaram essenciais.
Julho: exportações estabilizam, preços seguram
O queijo na CME se manteve em torno de 1,6 USD/lb em negociação ativa. É aí que oferta e demanda se encontraram.
Os números de produção impressionavam. A produção de American cheese estava 5,55% acima do ano anterior. O cheddar havia se recuperado por completo, a +9,64%. Mas as exportações já haviam subido a níveis recordes.
A recuperação dos mercados financeiros após o “Liberation Day”, no início de julho, melhorou o humor geral com commodities. As exportações de queijo atingiram níveis recordes só em maio, com Japão e Coreia do Sul liderando os ganhos de volume.
O mercado havia achado um equilíbrio: oferta recorde encontrando exportação recorde, com preços deprimidos, porém estáveis.
Preço de equilíbrio: 1,6 USD/lb, sustentado pelo volume de exportação.
Agosto: a virada para o negócio de exportação
Um relatório técnico de verão mudou o enquadramento por completo.
A mozarela atingiu 403,6 milhões de libras em junho. A CME já carregava contratos sérios de mozarela. O que era um ingrediente doméstico cativo havia virado commodity negociada.
A narrativa passou de “gestão do mercado interno” para “concorrência global”. A produção de queijo do primeiro semestre estava bem acima do ano anterior. As novas plantas rodavam. Os traders começaram a olhar os preços europeus mais de perto. A dinâmica competitiva estava mudando.
A escala da mozarela: 403,6 milhões de libras em um único mês. Agora um fator de preço global.
Setembro: a concorrência aprofunda a queda
A queda de preços ganhou velocidade em setembro.
As expansões de capacidade completavam sua rampa. As exportações americanas de queijo estavam fortes: +13,64% no acumulado do ano (92 milhões de libras a mais que em 2024). Mas a concorrência havia se intensificado.
- A produção europeia de queijo subia de marcha
- A Nova Zelândia estava competitiva
- As exportações dos EUA eram fortes em volume, não em preço
Os dados mostravam a divisão:
- Exportações americanas de queijo: +13,64% no acumulado, +92 milhões de libras
- As exportações totais de queijo dispararam 29% (+11.818 toneladas) em julho, com o cheddar a +143%
- Mas: queda de preço de 30% no ano, em aceleração
Os processadores encararam uma escolha brutal: baixar preços para manter volume, ou segurar preços e perder participação. A maioria escolheu volume. Queijo como commodity raramente tolera defesa de margem quando concorrentes globais podem cobrar menos.
O sinal de setembro: as exportações eram a história do volume. Mas o problema real era o preço.
Outubro: a caixa-preta dos dados
Outubro trouxe uma paralisação do governo. Os dados de produção láctea do NASS apagaram. Nenhuma estatística oficial sobre produção de leite, de queijo ou armazenagem frigorífica.
Isso obrigou os traders a decidir sem informação em tempo real. Os boatos preencheram a lacuna.
O que se via: os preços europeus de mozarela haviam desabado para 1,47 USD/lb, enquanto os americanos seguravam em 1,81 USD/lb. Esse desconto de 33,5 centavos era uma bomba-relógio para a competitividade dos EUA.
A Coreia do Sul, mercado-chave em crescimento, mostrava importações de queijo fresco 51% maiores no acumulado do ano. Esse volume vinha dos EUA ou de alternativas europeias mais baratas?
Outubro foi o mês em que a incerteza disparou. Sem dados, os produtores tiveram de tomar decisões do quarto trimestre com informação incompleta e, pior, com os preços dos concorrentes se movendo contra eles em tempo real.
A pressão europeia: 1,47 USD/lb na Europa contra 1,81 USD/lb nos EUA. A janela de margem se fechava.
Novembro: o colapso da margem
Em novembro, os preços europeus haviam caído tanto que a vantagem competitiva americana havia evaporado por completo.
O queijo em blocos na CME atingiu o nível mais baixo do ano. O consumo doméstico, que havia subido brevemente em maio, não conseguia absorver a produção recorde. A forte produção de leite continuava. A concorrência europeia feroz era agora a restrição que definia os preços americanos.
A história da exportação, que sustentara as margens de junho a outubro, se desfizera. Sim, os EUA exportavam mais queijo em volume. Mas o preço por libra estava sob pressão constante da concorrência global.
A história do crescimento produtivo teve um mês para se contar: a produção de queijo de agosto mostrou crescimento desacelerando para +0,52% no ano, ante mais de 2% nos meses anteriores. O freio estava sendo acionado.
Depois de meses de desempenho forte na exportação, os preços europeus corroíam a vantagem americana. Quem havia apostado em demanda de exportação sustentada encarou uma realidade: volume não ajuda se as margens somem.
A realidade de novembro: 13,64% mais queijo exportado de janeiro a julho. Mas preços europeus 500 EUR/mt mais baratos, o que significou receita menor por unidade no segundo semestre.
Dezembro: a mínima do ano
O queijo em blocos atingiu em dezembro o nível mais baixo do ano. A CME fechou em 1,47 USD/lb, mínima em 17 meses.
A mozarela enfrentava concorrência global de alternativas mais baratas. A produção recorde de queijos de grande volume encontrava um consumo doméstico que havia chegado a um platô. Não faltava queijo. Faltavam compradores dispostos a pagar os preços de janeiro.
O estoque envelhecendo custava caro. O queijo produzido em junho e mantido até dezembro enfrentava custo de carregamento, risco de perda e a constatação de que esperar não tinha melhorado os preços.
O mercado havia comprimido. Quem fez o investimento para acrescentar capacidade em 2024 operava agora esse equipamento com margens menores que as planejadas. A queda de 27% no ano apagou os retornos esperados.
Marcador de fim de ano: 1,47 USD/lb, mínima em 17 meses.
O arco: a oferta ganha, o preço perde
Foi isso que aconteceu em 2025:
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Nova capacidade entrou em operação. Novas plantas de mozarela e cheddar começaram a produzir no primeiro e no segundo trimestre.
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A produção de leite explodiu. Os maiores rebanhos desde maio de 2023 despejaram leite no sistema.
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A demanda doméstica ficou parada. O consumo per capita de queijo nos EUA crescia no longo prazo, mas o avanço anual foi modesto.
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As exportações viraram a válvula de escape. De junho a outubro, o volume exportado impediu um colapso completo dos preços.
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A concorrência global alcançou. Os preços europeus caíram forte e, em novembro, a vantagem americana de exportação havia sumido.
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Os preços se comprimiram ao limite. Dezembro marcou a mínima do ano, e o setor se preparou para volatilidade continuada em 2026.
A lição para as áreas de compras: nova capacidade não desaparece. Ela segue produzindo. Quando concorrentes globais podem cobrar menos, as margens se movem rápido. A estratégia de janeiro, capturar a vantagem de oferta, havia evaporado em dezembro.
O que vem a seguir
O mercado americano de queijo se move rápido. A cada semana, novos dados de produção, relatórios de armazenagem, volumes de exportação e mudanças de preço da concorrência redesenham o quadro.
Nosso US Weekly cobre tudo isso: queijo, manteiga, soro, leite em pó desnatado, produção de leite, tarifas e as forças globais que puxam os preços lácteos americanos em todas as direções. Escrito pelo time de laticínios da Vesper e entregue na sua caixa de entrada toda sexta-feira.


