
- Perguntas e respostas com Gehrman Kosenkov, analista especialista em óleos vegetais e biodiesel
Nos últimos meses, a comunidade global vem lidando com os desdobramentos da geopolítica do Oriente Médio, especificamente os ataques no Mar Vermelho, sobre diversos setores. Um dos que sentem os efeitos é o complexo de óleos vegetais. Junto com Gehrman Kosenkov, analista de óleos vegetais e biodiesel da Vesper, vamos explicar os impactos (potenciais) sobre o complexo de óleos vegetais.
A história começa por volta de novembro, quando milicianos houthis apoiados pelo Irã ganharam as manchetes ao sequestrar e bombardear navios no Mar Vermelho, após a invasão de Gaza por Israel.
Os ataques no Mar Vermelho introduziram instabilidade inegável nesse espaço marítimo, afetando uma das rotas logísticas mais críticas e a dinâmica do comércio global, já que ela conecta Europa, Mar Vermelho, Oriente Médio e Ásia.
1. Como o conflito no Oriente Médio afeta os custos de logística, os prazos de entrega e os fluxos comerciais?
Os ataques no Mar Vermelho perturbaram a estabilidade marítima, enviando ondas de choque pela logística, pelos prazos de entrega e pelos fluxos comerciais. Índices de transporte, como o índice de frete de contêineres, dispararam, ampliando custos para todos os tipos de embarcação, veja a Figura 1, sobretudo a partir do início de 2024. O Canal de Suez, rota vital, viu alta dos prêmios de seguro e dos bônus de tripulação, além do desvio de navios, o que resultou em prazos de entrega mais longos e despesas maiores.

Figura 1: índice de frete de contêineres
Em um cenário menos dramático, observamos tendência semelhante nas taxas de afretamento de navios que transportam petróleo ou óleos vegetais, veja o Baltic Dirty Tanker na Figura 2. No início de janeiro houve alta expressiva, seguida de um período recente de arrefecimento. Apesar da queda recente, as taxas seguem acima do nível de dezembro.

Figura 2: Baltic Dirty Tanker
A linha laranja no mapa (Figura 3) representa o Canal de Suez, e fica evidente que os tempos de navegação do Norte da Europa até a Ásia dobraram. Os navios que optam pela rota do Canal de Suez enfrentam despesas maiores na forma de prêmios de seguro elevados e bônus de tripulação. Já os que escolhem a rota roxa em torno do Cabo da Boa Esperança enfrentam custos maiores de combustível e abastecimento por causa do trajeto mais longo.

Figura 3: o conflito no Mar Vermelho aumenta os tempos de navegação
2. Quanto mais longos ficaram os prazos de entrega por causa do conflito no Oriente Médio, e quais commodities especificamente foram afetadas?
O conflito no Oriente Médio acrescentou cerca de 10 dias aos prazos de entrega, criando um efeito dominó sobre a capacidade de transporte disponível. Commodities agrícolas e de energia, em especial grãos e óleos minerais, foram afetadas por prazos de entrega mais longos e custos de frete mais altos.
3. Os preços do petróleo estão reagindo ativamente ao conflito no Oriente Médio. O que você sabe sobre isso?
Se olharmos o petróleo Brent, referência decisiva para os preços globais de energia, do início de janeiro até agora, há uma tendência perceptível de alta no preço (veja a Figura 4). Essa alta está diretamente ligada à mudança de rota dos navios, fator que influencia as condições atuais de mercado.

Figura 4: gráfico de liquidação histórica por contrato para o petróleo Brent em USD/barril
As pessoas podem se perguntar por que não houve alta imediata dos preços do petróleo em novembro, quando ocorreram os ataques. O salto veio em janeiro, quando mais empresas de navegação optaram por desviar suas rotas (veja a Figura 5).
A razão desse impacto tardio está no fluxo eficaz de tráfego pelo Canal de Suez em dezembro. Apesar dos ataques de novembro, a operação do canal seguiu estável. Foi só quando EUA e Reino Unido lançaram ataques contra os houthis que as tensões se elevaram, levando mais empresas de navegação a optar por desvios em janeiro.

Figura 5: média móvel de 7 dias das escalas diárias de navios-tanque, segundo a ING Research
4. Dá para dizer que o petróleo tem efeito sobre o complexo de óleos vegetais?
O óleo mineral costuma influenciar os óleos vegetais, mas é essencial considerar o contexto mais amplo. Neste caso, vários fatores contribuíram para as mudanças na dinâmica dos óleos vegetais.
Em primeiro lugar, a atenção deve ir para o óleo de girassol, que viaja do Mar Negro, sobretudo da Rússia, para destinos como a Índia. Além disso, o óleo de palma, transportado da Indonésia e da Malásia para a Europa, é outro foco central. As duas rotas usavam o Canal de Suez antes do conflito.
Vamos olhar mais de perto as posições a termo do Vesper Price Index para o óleo de girassol, uma referência com forte correlação com outras origens, veja a Figura 6.

Figura 6: posições a termo do Vesper Price Index para o óleo de girassol do Oeste da UE, em EUR/mt
Como se vê nas posições a termo do Vesper Price Index para o óleo de girassol, há uma queda de preço notável.
Isso pode levantar a dúvida de como essa queda é possível com os custos logísticos em alta. Para validar, é preciso olhar de perto os preços CIF (custo, seguro e frete), que incluem os custos logísticos, veja a Figura 7.

Figura 7: posições do Vesper Price Index para o óleo de girassol turco, em EUR/mt
Quando examinamos os preços do óleo de girassol bruto para a Turquia, importadora importante, fica evidente que, apesar da alta dos custos logísticos, os preços CIF confirmam uma queda recente dos preços no conjunto.
Em resumo, as conversas que tive com traders ucranianos esclarecem a queda dos preços turcos e indianos. A confiança na Ásia, em especial na Índia e na China, parece ser o motor. Esses compradores estão em posição vantajosa, com estoques fartos de óleo, somados à vantagem de Malásia e Indonésia serem países próximos, capazes de entregar óleo de palma rapidamente para atender às suas necessidades.
A mensagem dos compradores asiáticos aos exportadores ucranianos e russos é cristalina: eles não se abalam com a alta dos custos de frete e dos riscos. O ônus de lidar com esses desafios fica com os exportadores. Se não derem conta, correm o risco de perder negócio. Por consequência, os compradores asiáticos se veem em posição de força na negociação.
Em resposta ao aumento dos riscos logísticos, grandes exportadores ucranianos como a Kernel vêm redirecionando seu foco de forma estratégica. Eles ampliaram as vendas de óleo de girassol para a Turquia, um movimento geograficamente mais próximo da Europa.
Essa virada tática dos grandes players ucranianos, inundando Turquia e Europa de ofertas, contribuiu para empurrar os preços para baixo.
Voltando à sua pergunta, embora o óleo mineral em geral afete os óleos vegetais, é importante avaliar cada caso individualmente. Curiosamente, os custos expressivos de logística e de óleo mineral não parecem ter afetado os preços do óleo de girassol.
5. Qual é o efeito do conflito no Oriente Médio sobre os preços do óleo de soja?
Houve queda expressiva dos preços do óleo de soja na comparação semanal, o que pode ser atribuído ao fato de o complexo soja estar no momento menos preocupado com o Mar Vermelho e predominantemente focado no lado da oferta. Esperamos uma oferta global recorde de soja, e esse aspecto está sendo acompanhado de perto por todo o setor.
Na semana passada, por exemplo, a previsão de produção de soja da Argentina foi revisada para cima. As condições climáticas no Brasil são em geral favoráveis e a colheita avança em ritmo acelerado, o que leva ao enchimento mais rápido dos armazéns.
Ao mesmo tempo, a demanda da China não está robusta, em boa medida por causa da fragilidade do setor suíno, o que exerce pressão considerável sobre a soja. Em resposta, os brasileiros vêm oferecendo descontos, o que leva a uma tendência de queda nos preços.
Além disso, a demanda por soja americana desacelerou, influenciada pela demanda menor tanto dos mercados de alimentos quanto do setor de biodiesel. Apesar desses desafios de curto prazo, olhando o quadro maior, espera-se que neste ano a demanda por óleo de soja nos EUA vinda do setor de biodiesel se sustente, dando suporte ao óleo de soja.
6. Você pode nos dar uma perspectiva de curto prazo do complexo de óleos vegetais em relação ao conflito no Mar Vermelho?
Ao falar dos ataques no Mar Vermelho, preciso deixar claro que não sou especialista em política, mas, pelo que reuni, posso compartilhar o sentimento predominante. Parece que, se a crise não for resolvida, há a possibilidade de um aperto na disponibilidade de navios no mercado, o que levaria a custos de frete maiores. Isso poderia ter impacto mais pronunciado sobre os preços do petróleo. As pessoas também manifestam preocupação com os potenciais efeitos de transbordamento do conflito.
Apesar dessas preocupações, parece não haver intervenção significativa, o que sugere que a situação pode persistir. Se houver transbordamento, há potencial de impacto expressivo sobre os mercados de energia e, por consequência, sobre os preços dos óleos vegetais.
Gehrman Kosenkov faz atualizações quinzenais gratuitas sobre o setor de óleos vegetais e biodiesel. Inscreva-se gratuitamente na série de webinars dele aqui e acompanhe as tendências mais recentes que movem o complexo de óleos vegetais.


