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As importações indianas de açúcar sem imposto perdem o atrativo

A Índia liberou a importação de 1 milhão de toneladas de açúcar bruto sem imposto, mas só metade deve ser usada, e a produção da UE deve cair quase 20%.

Gabrielle Del'Arco
Gabrielle Del'ArcoAnalista de açúcar e adoçantes
3 de setembro de 20263 min de leitura

A notícia de que a Índia liberou a importação de 1 milhão de toneladas de açúcar bruto sem imposto impulsionou o mercado global no mês passado, e os preços acumulam alta de quase 30% no período. Depois os preços internos indianos recuaram, e importar deixou de compensar o esforço. A expectativa agora é de que o uso efetivo alcance apenas cerca de metade do volume disponível.

Por trás do ruído regulatório, o tom de fundo segue favorável. Os preços vêm se mantendo acima de 18 centavos de dólar por libra-peso. Os efeitos do El Niño continuam em ação, sobretudo o tempo seco na Índia e as chuvas no Centro-Sul do Brasil, e mantêm as expectativas para a safra 2026/27 em déficit. O contrato de açúcar bruto nº 11 para outubro de 2026 subiu a 18,36 centavos/lb em 1º de setembro, e o contrato nº 5 de açúcar branco para outubro avançou para 534 USD/mt. O preço indiano do açúcar cristal em Kolhapur caiu cerca de 25% em relação ao recorde marcado em 25 de agosto, e é esse movimento que corrói a margem do importador enquanto o bruto no mercado global segue bem sustentado. O Ministério da Alimentação da Índia também anunciou um sistema de alocação quinzenal a partir de setembro, em substituição às cotas mensais, para evitar saltos nos preços locais.

A Europa é a preocupação maior do lado da oferta. A DG AGRI projeta agora a produção da UE em 2026/27 em 13,4 milhões de toneladas, uma queda de quase 20% em relação à safra passada, com os estoques finais caindo de 3,06 para 2,32 milhões de toneladas. A análise da própria Vesper para a UE estima a oferta em 13,5 milhões de toneladas, ou 14,3 milhões incluindo o Reino Unido, depois que o tempo seco persistente nas regiões produtoras se estendeu até um período crítico para a formação do rendimento. A associação francesa de produtores de beterraba, a CGB, alertou que a produção pode cair mais de 20% em relação à média de cinco anos, com o peso das raízes 18% abaixo da média em meados de agosto e o desenvolvimento foliar reduzido em mais da metade. O boletim do JRC MARS de 24 de agosto cortou o rendimento esperado da beterraba francesa para 76,5 toneladas por hectare, 15% menos na comparação anual, e estimou a média europeia em 72,2 toneladas por hectare, também 11% abaixo do ano anterior.

O Brasil puxa na direção oposta, mas devagar. A Conab estima a produção de cana em 2026/27 em 705,2 milhões de toneladas, alta de 4,7% sobre a safra passada, ainda que com mais cana indo para o etanol: a produção de açúcar deve cair 2,9%, para 42,89 milhões de toneladas, enquanto o etanol de cana sobe 9,7%. Os embarques do Centro-Sul nos primeiros 15 dias úteis de agosto ficaram 57% abaixo do mesmo período do ano passado, o que sustenta os preços globais pela percepção de uma oferta brasileira mais apertada no curto prazo, mesmo que o total da safra ainda se confirme.

Os fundos captaram a mensagem e adicionaram 25.445 contratos no NY11, chegando a uma posição líquida comprada de 55.509 lotes, ao mesmo tempo em que reduziram a exposição em café e ampliaram as posições vendidas em cacau. A safra interna da China e o seu apetite por importações são o próximo ponto a acompanhar, e é aí que os baixistas têm com o que trabalhar.